Parara.
Estava distante de qualquer ápice de criatividade e, convenhamos, não era esta a justificativa para a interrupção das atividades de mentiroso amador. Não justifica (como se tivesse a quem fazê-lo, eu), não escusa.
Há muito o que fazer e não sei quanto tempo.
São inúmeros os temas que poderiam ser abordados e tratados neste (moleskine, vejam só, ganhei cadernetas). Sonhos lúcidos, viagens, grãos de tempero, doenças, festas. Megalomaníaco que sou, não admito deixar escapar a oportunidade de tergiversar - - não, nada de versos, pelamor.
Falaria de Clarice e do espelhinho encontrado na obra com que tive contato - esse é um dos temas em que não desejava tocar -. Antes (e por puro gosto) preferiria falar de Sterne, autor já citado por aqui, em algum momento, por conta do onitextual Santos. Lispector e Sterne remontam, num primeiro momento, aos mesmos valores, ao menos em minha própria mitologia: a freqüente e persistente busca por identidade(s), espicaçada por Regina e Carlota, impotentes; pela interpolação de Araujo, Nascimento, Vicente, Ferreira, Joselito, trabalhos e desafios - poderia e desfilaria nomes e motivos se não desejasse ordenar: respeitemos o espaço-tempo, x = {ct, x}.
Espaço-tempo, causalidade, início, meio, curva temporal fechada, início, fim. As humanidades - não consigo, não adianta, não enxergo este ramo do conhecimento, as humanidades, como ciências humanas - permitiam (passado?) o desarranjo; não somente permitem, brindam-no, recebem de peito aberto quaisquer novidades, as mais absurdas (esse texto seria bom exemplo, fosse ele absurdo por si só).
Digressões. Fazem parte de meus textos desde há muito — cartas perdidas, queimadas, irreconhecíveis e, portanto, inexistentes - como é difícil reconhecer-me! — e, por causa delas fui levado à Sterne. Clarice, já são outras histórias: uma delas já foi contada (voltaria à Regina se acreditasse ser a repetição tão válida quanto a digressão - não é o caso, hoje -: Clarice e Regina estão relacionadas noutro lugar.) e a outra história tem a ver com ***** e ainda outras vivências. Não será este o local apropriado.
Mais de um mês sem dar-me ao trabalho de pôr pensamentos no papel, divagações que expulsassem do sistema interno todo o mal que eventualmente causaria efeitos somáticos. Minha atual falta de resistência possivelmente é resultado dos diversos abusos praticados em nome do volume de trabalho e da marca que, pretendo, seja reconhecível nele: -”Que bela peça!” Faltava-me o tempo suspenso, os instantes entre uma e outra palavra; instantes estes precedidos pela classificação e relação de idéias, todas atabalhoadas, procurando um meio de manterem-se por si só. Só quem nunca escreve espanta-se quando, perto da morte revêtodasuavidanumflashdesegundos.
Enquanto procuro entre vãos e andaimes, encontro três pessoas. Três que - por acidente ou interesse - deram pela falta de alguma palavra minha. Só então, revendo todo este texto, percebo o quão pessoal estou sendo, fugindo à alguns dos objetivos originais, globais deste exercício; percebo ainda que escrever e ler são dois de meus hobby-horses (tenho ainda outros mas, que sei eu?).
Hobby-horses. Sterne. Locke. Notas de rodapé. “E o mundo gira e gira o mundo…” (…) Com o tempo suspenso, não fico tão perdido ou, ao menos, não sou visto com expressões de perdido, dizendo: -”Mas onde eu estava mesmo? Me perdi. Já que mudei de assunto, continuo falando sobre n***, tudo bem?” Pois volto às notas de rodapé: pensei em ignorá-las enquanto lia A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristam Shandy e, fortuitamente, abandonei a idéia.
Uma das notas acerca dos cavalinhos de pau remete à cavalgar - exatamente o que o Santos vem fazendo na última semana. É bem verdade que boa parte de nossas vidas é tomada por cavalinhos de pau - e isso vale para todos, todos -, em tamanhos e espécies diferentes (do que?), o que só vem a permitir estapafúrdias classificações, sejam elas naturais ou não. Já foram tantos os cavalinhos dele!, seria difícil citá-los sem deixar um ou outro de lado, sem conseguir delinear as dimensões deste senhor. Prendamo-nos ao fato de que este senhor tem passeado por plantações de mostarda, à procura de fadas: resultados de seus estudos, leituras e escritos. Não encontrando nenhuma conspiração, que vá caçar suas fadas onde bem lhe aprouver. A realidade é, mesmo, fantástica.
A realidade é mesmo fantástica. Que contatos teria Giu com tal realidade, ela que ainda não se deu a oportunidade de ler Saramago? Apressado, o julgamento. Saramago não é o único a criar realidades fantásticas. Giu, jovem - nunca soube se chamá-la assim causa-lhe algum incomodo (causaria, a mim) - é também ávida por leituras e, recentemente, passou a publicar escritos que antes sobreviviam em arquivos escuros e solitários. Não mais, felizmente, agora bloga: tem deixado seus pensamentos nus, diante de todos. Amigo dela há quase três anos, conheci seu blog não por acaso - conhecê-la, talvez, tenha sido um quase acidente - e, digo sem pudores: fiquei bastante surpreso.
O mesmo não pode ser dito da senhorita Campos - ainda me rio de seu nome, pensando em física de partículas e campos (ela gosta de física e, #gasp#, adora matemática) e lembrando da peça E Agora Sr. Feynman?, em que o famigerado e genial Dick conversava com uma de suas alunas, senhorita Campos. Piadas minhas, nunca lhe contei nada disso (falo como se houvesse algo a esconder - não há) -. A moça, não bastasse os gostos diferentes - física, matemática, Vertigo, Eisner, Sandman, Satie (apresentado a mim por ela: adorei) - escreve muito, muito bem.
Sempre é um prazer trocar letrinhas com quem escreve tão bem e com tanto prazer. Foi Maria quem inadvertidamente me despertou, de sono profundo e já longo demais - estive muito desperto e, ao mesmo tempo, desligado da situação, da importância da experiência -, me trazendo de volta a este universo.
Universo este que só existe
porque há o que contar
Santos, Giu, Campos. As três pessoas que deram falta de manifestações minhas. Não ouso perguntar motivos, e minha curiosidade clama por conhecê-los, todos, estar com eles, beber; antes, torno a escrever, um brinde. Seria um hipócrita se dissesse que publico sem expectativas de agradar a alguém (ou mesmo de causar desconforto!): a experiência continua.
Continua.
Março 2, 2008 em 10:02 pm
Oh, well…
Escrever é sempre uma maneira de estatelar nosso universo. Blogar é estatela-lo olhando de soslaio para ver se alguém pisca de volta…