Carlota,
Eu percebi. Notei. Vi. Ou melhor: não vi.
Neste natal tua ausência ardeu, presente. O natal, em si, tem papel de pouca relevância ao que estou a lhe contar, é uma data incidental; marca-me muito mais o vazio - meu companheiro, parceirão mesmo -, que me calou, provocador.
“Ah, e agora te faço falta… sei.”
Não, não sabe. E esta carta, aberta e quase sem dono - porque não te convido a vir aqui, ler - não será uma tentativa de explicação, redenção, pedido de perdão, nada disso. Já estou distante deste ponto, sujo e maltrapilho, não pretendo virar a cabeça pra espiar o que deu certo e o que fiz de errado. Ao menos não agora (novamente).
Estou escrevendo porque percebi. Notei. Somei. Acordei querendo notícias tuas, naquela manhã. Freqüentemente quero, pouco importa que esteja distante; egoísmo meu - aprendi a encher a boca e dizer, com mais letras que as necessárias, que sou egoísta, mas isso você já percebeu, não? -, acreditar que faz qualquer diferença saber. E faz, pra mim (e não é isso, e somente, isso com que deveria me importar?).
- e lá ia eu, falando sobre mim novamente -
Como ia dizendo, queria notícias. Vinha mantendo uma única fonte, a rede de relacionamentos; e relacionamento era algo que não tínhamos mais nem mesmo dentro da rede, finalmente se livrara de nossa tênue relação. Pois é, e naquela manhã de silêncio, não te encontrei. Nada, simplesmente deixara de existir. Deixara de existir? Incorrecto - com a majestade dos ces portugueses -: até mesmo o suicida virtual deixa sua marca no mundo.
Andei, procurei, revirei. Nada, realmente partira rumo ao oeste?
Derivei. A cronologia bate, os eventos podem ser ordenados em disposição tal que torna possível explicar os últimos acontecimentos. E, justamente por isso, uma carta aberta: você sabe da existência deste lugar, sabe sim. Não tocarei no processo de descobrimento, seria extenso e técnico: gibberish, noise. Aponto somente a ponta da montanha flutuante de gelo: a menina que colore.
Quando não te encontrei, quase que imediatamente lhe dirigi um e-mail. Quase que; fui impedido por senso que não é bom nem mau (nem poderia ser, os adjetivos sempre advém de nosso juízo, nunca do senso). No mesmo dia, dei de cara com um desvairo de Maria, resposta a algo escrito ainda em outro blog, do Isquierdo: provocações à distância e desinteressadas. Pois é, me vi na imagem por eles pincelada: faltam-me pedaços e, por minha vez, tenho comigo pedaços de vocês: Frankensteins.
Conversei com Vicente. Fez questão de falar, sem papas na língua: -”Você gosta das coisas mal resolvidas, gosta que fiquem no ar.”
Minha perspectiva é bem outra, especialmente nestes casos. Claro, só vejo o que me interessa. E, sinceramente, quem entrou com a bunda em nosso último e derradeiro acordo, fui eu. Não fiquei bem resolvido, não. Quem tem que agüentar isso sou eu. Nunca mais liguei pra você; e-mails? só mandei praquela conta específica, que você só usava pra conversar comigo e que nem deve olhar desde a fixação da marca do teu sapato no meu traseiro - e, se olhou, é porque você estava mal-resolvida (problema seu, essa situação me parece muito clara) -, não dei chiliques ou chorei no ombro dos seus amigos; mal falei com os meus! Nada disso. Eventualmente me resolvi, me peguei lembrando da perna boa que já tive, aceitando nunca mais andar igual, por mais desengonçado que fosse meu caminhar: gosto de ver as fotos antigas (sou assim). Gosto de lembrar. E só.
Aceitei minhas feridas. Por elas, fui à guerra. Livre e espontânea vontade, se é que temos algum arbítrio quando o assunto é o sonhar. Não existe, ficamos presos entre medo (que alguns, artistas, dominam), improbabilidades (o impossível torna-se provável) e nossas ações (ainda há aqueles que pretendem responder pelas ações alheias).
Você deveria estar bem, resolvida, feliz. Recuperou-se rapidamente - a olhos vistos, só não viu quem não quis -, enquanto eu, sentado, alimentava os pombos, observando o movimento na praça: bolas quicando, casais se esfregando em júbilo, o vendedor da carrocinha de cachorro quente. Você deveria estar bem resolvida. Deveria. Deveria.
Partindo do (claro) pressuposto de que esteve aqui, da ordenação precisa e explicativa dos acontecimentos, chego à conclusão. E me preocupo. Te conheço um bocado e não fico feliz em saber que você pode, ainda, sofrer por minha causa ou qualquer coisa relacionada a mim. Pretensioso, sim, e não por vontade própria. Diga que estou errado, que não vejo nada acima da linha do meu umbigo, não reclamo. Novo acordo: continuo quietinho, não falando mais seu nome, nem baixinho quando estiver sozinho e você, por sua vez, me esquece: me joga, me apaga, se livra.
A possibilidade de que posso estar errado nem é aventada; se estiver errado em tudo que disse, não há qualquer diferença para o ontem ou o hoje. Não dependo disso, também: estou fazendo o que necessito. E só.
Eu percebi. Notei. Vi. Não agüentei e… te escrevi.
Um pedaço de conversa - imaginário, como todas as minhas conversas
Escreve. Quando criança, a palavra era tua. Voz. Instrumento. Playground.
“Acontece que não sou mais uma criança.”
Dirias isso sem mover qualquer músculo, alterar a respiração, contrair ou dilatar as pupilas.
Desnecessário. A graça em perder certezas é navegar ansiedades e meias-lembranças.
Escreve como sabes (e sabes bem). Tua pena agora faz click e permite graus diversos de escrutínio.
“Escrutínio, escrotinho.”
Dezembro 29, 2007 em 8:28 pm
Dearest friend…
Sinceramente, “conseguir ser solitario” é inusitado, lisonjeiro demais para mim. Se Albert Einstein afirmava ser a solidão a “grande mãe da alma”, graças à qual um individuo “não se torna presa facil da opinião das massas”, tenho ca minhas ressalvas quanto a sua frase. “Conseguir” implica algum tipo de sucesso, ou ao menos a idéia de uma realização contraria à tendência natural. Consegue-se perder um gol feito, consegue-se entrar na faculdade… Mas conseguir a solidão é uma intenção por demais nobre e forte para ser atribuida a esse servo que vos fala! Minha solidão me é imposta pela tristeza, é uma conseqüência natural sem que eu possa encarnar mérito algum!
Enfim, to make a long story short, vou escrever mais longamente outra hora, que nesses dias sou eu também um quebra-cabeças à procura do desgraçado que chacoalhou a caixa…
Abraços,
Santos
Dezembro 31, 2007 em 11:02 am
Divida essa sensibilidade, querido.
que parece ser tão plena, pura.
Teu texto é lindo.
Beijo!
Fevereiro 24, 2008 em 11:21 am
Bah.
Já li umas três vezes, desde que vc me passou o endereço daqui…
Na segunda vez eu chorei, muito. Tava no olho do furacão (odeio essa expressão, mas que seja!), com as feridas doendo e a bunda idem.
Acho que o pior é quando se quer ressucitar o que foi bom, esquecer aquele dia/noite em que teve “aquela” briga, ou quando vc pescou que o interesse do outro estava far and away from you. Fazer de conta que era tudo tão… “tão”.
Ainda sou bobinha, apesar da idade: ainda quero ser interessante para alguém, a ponto desse alguém querer ficar comigo, apesar de tudo o que venha contra.
Não é essa a cola que une? O interesse/afinidade? Pô.
Eu quase enlouqueci, com uma seqüência de “catástrofes”, justo no primeiríssimo mês do ano. A pior foi a conexão pé/bunda.
Inda dói. E eu te pergunto, mestre celta, como é que faz parar de doer?