Santos,
Estou cá um pouco atrapalhado, sem saber entender a forma correta de escrever-lhe nova missiva. Em princípio, começar a tarefa - termo incorreto, perdoa-me: atividade tão prazerosa não pode ser tida como tarefa - apresenta-se como um desafio por si só, não havendo ombros sobre os quais eu possa me apoiar: jamais escrevi uma carta como esta, aberta.
(mentiria se dissesse que jamais publiquei carta ou e-mail. Faço questão de deixar claro, entretanto, que jamais produzi qualquer material tendo em mente esta dupla intenção ou, em outras palavras, esta promete ser uma aventura e tanto)
Confuso, fiquei. Não havia um bom ponto de partida (ao menos em mãos) imediata. Voltei minha atenção às reminiscências de nossa última conversa, os copos por lavar na pia, o naco de pão e o queijo ainda na mesinha da sala, e fui surpreendido pelo óbvio: minha confusão.
Novamente, Santos, espanto-me; desta vez, entretanto, o faço com uma pitada de orgulho - apesar de entender que a ação que animou a linha de eventos em que resultam estes dois últimos parágrafos. Falo em círculos? Sim.
Não.
Tenho o texto original em mãos. Mesmo. De uns tempos pra cá, quase toda conjunção de símbolos que me passa pela cabeça faz escala em um caderninho. Aliás, aproveito para informar-lhe - não peço, informo - que você irá às compras por mim, aí: o pequeno confessionário em que rascunho está mais e mais apertado a cada dia e gostaria que encontrasse uns moleskines, que são meu maior objeto (somente objeto: tenho precisão mesmo é de … pois é, o ônus da carta aberta se faz manifesto) de desejo, neste instante.
Ao que interessa, sem perder o foco e já espiralando: a última carta que lhe enviei, confusa. Ou nem tanto, que é o que parece ter acontecido depois que você conseguiu encaixar o estilo - ou falta de, digo sem pudor (já não tenho mais vergonha, há tempos) - em que escrevi.
A referência que você citou realmente mexeu com meus brios. Life and Opinions of Tristam Shandy, o suposto precursor de Ulysses e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de James Joyce e Machado de Assis, respectivamente (de acordo com os sites Bibliomania e Wikipédia); não só isso, ainda se fala nesta estória como uma das primeiras manifestações do pós-modernismo! Descobri este movimento - soa político, não? - ou, melhor dizendo, a corrente pós-moderna, há pouquíssimo tempo, enquanto escrevia sobre Seinfeld. Não, não é bem essa a verdade: eu conheço o termo, pós-modernismo, há mais tempo, mas a preguiça impediu-me de referenciar-me.
E só criando confusão: no Bibliomania, diz-se que o livro pode ser considerado como originador do fluxo de consciência. Lembra que te perguntei sobre? Regina afirmou há muito tempo (seis anos já nem é mais tanto tempo assim, convenhamos) que minha maneira de escrever a remetia ao “fluxo de consciência desenvolvido por gente da laia de Clarice Lispector etc. etc..”
Oras, ela é tradutora. Você fala mais línguas que o papa anterior - metade delas morta, diga-se de passagem (sacanagem minha, pura. Eu mesmo te defendo com citação do José: -”Toda língua escrita é uma língua morta.”) - e letras é seu ramo de estudos. E nem cito o bônus de que acredito em você a priori. Hora dessas eu pergunto à Maria sobre meus textos, só pra colocar mais lenha na fogueira - ela é boa em escapar de situações assim, ninguém sairá queimado.
(essa carta não deveria ser sobre nada disso, não é mesmo? Tristam mal conseguiu contar qualquer coisa de sua vida, em 9 volumes; quem sou eu pra conseguir falar sobre o que quero, em uma cartinha?)
Ainda espero a carta que acaba de colocar no correio; pouco importa se está na casa ao lado ou distante pacas, viciei. Furo a fila, entretanto, e me adianto ao que receberei por causa de uma de nossas últimas conversas de boteco, regada a cerveja e adubada com ovo colorido (azul o último!).
Nossa discussão girava em torno de minha possível reclusão: motivos e viabilidade. Engraçado, passei horas imaginando o início desta, escrevendo mentalmente o prólogo e… não tem absolutamente nenhuma relação com o que temos aqui escrito. Originalmente, eu ia direto ao assunto:
“Santos,
Sou um hipocondríaco.”
Claro que ia além, mas repare no tempo: ia. A dança agora é bem outra. Nunca é tarde, entretanto, para fazer ajustes - pouco importam as conseqüências. Santos, sou um hipocondríaco. As implicações de minha mania, minha obsessividade, são muitas, diversas.
Um enigma, um desafio.
Chamariam-me de vaidoso, sem titubear. Quando é que verdadeiramente não queremos parecer bons, mas queremos ser bons - aos nossos olhos ou de outrem? A situação é, arrisco-me a dizer, a satisfação pessoal, qualquer que seja a resposta. Espera, ainda não é isso: adiantei-me.
Supostamente estou tentando falar sobre o isolamento que busquei. O isolamento visava, sim, o bem geral: todos estariam seguros. Pura presunção minha ao acreditar em minha capacidade de influenciar a vida de alguém. Sim, um caduco cheio de pretensões. E, talvez, com um plano que ele mesmo desconhece.
Chega a ser engraçado. Minhas referências - livros, mesmo: venho tentando fornecer o mínimo de informações possível às pessoas imediatamente ao meu redor - dizem que estou correndo atrás de um tipo particular de satisfação. O eterno retorno é reforçado, sempre volto (e me volto) pra dentro.
Me encho de convicções e nelas me perco. Perdi a referência que antes tinha nos outros, o contraponto. O número de retas que podem ser traçadas não é mais limitado pelo outro, mas por mim. Minhas convicções ainda serão minha ruína.
Parece que pra fugir do lugar comum de minhas convicções, tenho me aberto, lentamente. O paradoxo é que ao fugir de minhas limitações, fortaleço-as (através do que apreendo dos outros: o paradoxo acabe de se mostrar maior do que eu imaginava quando escrevi a carta no papel). Uma ambigüidade angustiante tem circundado meus gestos, minhas ações: consigo vislumbrar a possibilidade de lucrar, qualquer que seja a análise realizada.
É, tenho pensado demais. Felizmente señor de Las Casas insiste em afrontar-me, irônico: -”Quem pensa profundamente sabe que está sempre errado, não importa como proceda ou julgue.” No instante em que sou atropelado por estes pensamentos, a tranqüilidade me acolhe.
Você afirmou categoricamente que sei ficar só, estar só: -”Você acolhe a solidão.” Pois é, devo ser assim mesmo. Fui criado assim, num núcleo familiar pequeno, sem camada eletrônica (senhora das camadas? Que imagem foi esse que faiscou agora?), ligações iônicas, nada. Passava horas, dias, sozinho, cercado por personagens imaginários; brincava do que quer que fosse, até pega-pega solo.
Em visitas intermináveis que fazia com meus pais a sei lá quem, eu permanecia quietinho, num canto, com gibis e, depois, livros. Ainda hoje acho que consigo ir a uma festa e ficar totalmente à parte dela (ou, ao menos, das atividades, só a observar). Daí a não sofrer com a solidão é um pulo.
Muito diferente de você, parte de uma família tão animada, tão fluída. Tenho a falsa certeza de que mesmo quando você se sentia o patinho feio e ficava só em seu canto, lendo - temos nossas semelhanças - vinha uma irmã, um primo, um tio, pra te tirar do sério, de tua casa de biscoitos e da armadilha da bruxa pedófila. Te colocavam na muvuca. É mais que compreensível que tais momentos venham a lhe fazer falta: você sabe ser solitário, mas você não o é. Seu caso, se não solucionado, é certamente atenuado por uma mulher inteligente, como vinha acontecendo em tempos recentes. Short skirt, long jacket, aye mate?
Quanto a mim, ainda sou um incomodo pra mim mesmo, uma pedra em meu sapato; inconformado. Não encontro um objetivo externo único, me vejo precisando tentar tudo. Minha vontade é minha medida. Sei que… deixa pra lá, esse assunto dá pano pra outra carta, resposta à tua que há de chegar em breve.
Não te agradeço o whisky da semana passada, sinto muito. Quem chegou até aqui - alguém? - já deve ter se esquecido há tempos de que esta é uma carta aberta e, in all probability, reclamará por falta de agradecimentos. Preciso desapontá-los. Espera: lembrei-os. Obrigado, muito obrigado, Santos. Aproveito o agradecimento, pra te convidar: que tal, em nosso próximo encontro, arrumarmos tempo pra cantar, sonhar, passar?
Sem mais, despeço-me com um forte abraço (este, aos pacientes e curiosos).
McFly
PS/ os problemas de continuidade, históricos, continuam. Não está mais que na hora de eu guardar retratos velhos, liberar molduras boas? (a esta altura, estou ininteligível…)
PS2/ our drunk conversations, I miss them. That’s one of the reasons I’ve just begun something different: http://lzoril.tumblr.com/. A tentativa, amigo, é de rachar o coco.
PS3/ li um texto curto, daqueles que adoro, sobre a solidão. Veja(m) em “Perder o vazio é empobrecer”.
PS4/ linkar palavras é muito menos maçante que ficar escrevendo endereço http.
PS5/ Acabei por encontrar outra referência a A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, no blog de Milton Ribeiro. Não bastasse Maria me obrigar - certo, eu me obrigo, ela só sugeriu sem dizer palavra - a ler Lispector, este sujeito está a me preparar para Musil em O Homem Sem Qualidades.
Dezembro 13, 2007 em 10:56 am
Oh, well…
Não ha resposta rapida, e meu tempo é curto. As palavras ainda devem se cristalizar em torno das idéias, mas falta a essas ultimas o tempo para sublimar.
I’ll write you back… meanwhile, take care.
Dezembro 22, 2007 em 1:37 pm
Hey babe!
tá mesmo colocando tudo em prática, hein!
que delicia de ler!
texto rápído, embora longo. E é assim que eu gosto. Leitura ágil.
Tô voltando… tô voltando!
;D
Fevereiro 24, 2008 em 8:42 pm
[...] não desejava tocar -. Antes (e por puro gosto) preferiria falar de Sterne, autor já citado por aqui, em algum momento, por conta do onitextual Santos. Lispector e Sterne remontam, num primeiro [...]