“A fidelidade deveria ser facultativa”

O Santos acreditava piamente no herói e em sua invencibilidade. O rapaz realmente gosta das linhas retas; se traçadas à mão, tanto melhor! Sem régua ou apoio pra caneta: à mão livre, sem que a ponta da caneta saia do papel e num único impulso. Até aí, acreditar nunca foi problema: há quem acredite em astrologia, que esquerda e direita podem ser definidas com exatidão - e isso estaria até provado! -, que o cinema americano não é arte, que o Reinaldo Azevedo é PSDB, que o homem não foi à Lua, etc.

Todo mundo gosta de heróis, tem admiração por alguém. Aquele cara durão do colégio, o brucutu do futebol, o chefe inflexível, todos eles suspiram, em algum momento: -”Meu herói…” E o Santos não acreditava somente no herói: ele usava capa, calções sobre as calças, botas coloridas e pega-rapaz… diacho, até o “S” de seu nome poderia aparecer numa camiseta customizada, impressa naquele quiosque que encara a C&A. Não que o Santos precisasse estar paramentado: suas ações falavam alto e sua boina, seus suspensório e seu maço sempre vazio de cigarro em nada contribuíam para eliminar a mítica que o circundava. Vivia se lamentando, por objetivos não atingidos e esta sim era uma grande diferença que o distanciava dos demais heróis.

Esse mundinho, que não é redondo nem quadrado - que diabos de forma é um geóide? - que gira o tempo em torno de si mesmo, do Sol e sabe-se lá o que mais, se negava a dar atenção às regras do Santos. O tal Destino? Fica escondido em seu enorme manto, certamente acorrentado ao seu livro que contém todas as incertezas que foram e que virão a ser.

 ”São todos hedonistas!” ele dizia, triste, como se buscar prazer imediato fosse errado. “Vocês precisam prezar mais por suas instituições!” Naquela fatídica semana, era o namoro a instituição que precisava de heroísmo: a causa da vez. Duas pessoas que se gostam e se comprometem têm que lutar pelo bem comum. “Têm que, entendeu?”

Ainda tem gente por aí que se mata por amor. Crimes passionais acontecem o tempo todo: viraram arroz com feijão no quesito notícia. Saudades do Notícias Populares, onde a vida ainda era um dramalhão mas era vida de verdade. Por outro lado, morreu o ato do indivíduo, todos precisam ser inspirados por outra pessoas, não existe mais o solitário. Nem no banheiro se costuma ficar a sós com a própria imaginação.

Mas tudo bem, vá lá não ter idéias próprias; assim é a unanimidade. O vilão pode bem ser outro.  O que cada um sente é próprio, seu. Com o desaparecimento do tiro de amor, do pau cortado, do barraco na rua, só sobraram as referências dos apaixonados de outrora, que morriam juntos ou, quando o amor não era correspondido, separados. Mas sempre morriam porque a morte, mesmo quando feia, é fácil. Duro mesmo é agüentar sarro dos outros, produzir trabalho sem ter vontade de sair de casa, vê-la na rua passeando de mãos dadas com o outro e imaginar o que ela não tem feito com aquelas mãos quando não está na rua. Viver por uma causa é mais difícil que morrer por ela.

O herói, Santos, falha sim. Principalmente quando as coisas não dependem só dele. Imagina o Batman frustrado, se queixando do sistema de justiça de Gotham: -”Eu prendi esse cara 3 vezes nos últimos dois anos. Vocês querem, por favor, mantê-lo preso?”

O relacionamento nem sempre permite que a dupla seja dinâmica. Se envolve duas pessoas, haverá momentos diferentes, opiniões diferentes, sensações diferentes. Na união, no coletivo, ainda há a individualidade. Para um relacionamento humano, ser herói pode significar engolir sapos  e andar de rojo. Aceitar que o herói falha é fundamental. Nelson, o do título, tá certo.

Eu falho o tempo todo. E nas falhas, tenho sucesso: o que causa mais sensação de heroísmo que enfrentar as dificuldades sem esperar pela recompensa ou reconhecimento alheio?

Santos, você quer ser um herói?

2 Respostas para ““A fidelidade deveria ser facultativa””

  1. 2007 Outubro 26 « ÓB.veo Disse:

    [...] seja. Já falara brevemente sobre o Orkut aqui e não queria falar mais sobre, ao menos com o tom dramático ou depressivo de conversas anteriores [...]

  2. ÓB.veo Disse:

    [...] seja. Já falara brevemente sobre o Orkut aqui e não queria falar mais sobre, ao menos com o tom dramático ou depressivo de conversas anteriores [...]

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