Os acordos

Abril 20, 2008

Pois deveria dizer que sofro, já não sou dono único dos textos que escrevo; ou, antes, sou, sem co-autores e, como não podia deixar de ser, repleto de vírgulas mal-postas, espalhadas, provocantes, separando períodos supérfluos. Sorte de alguns, poucos, que encontrarão alfarrábios mais limpos - quase paradoxal.

O acordo realizou-se recentemente, em cerimônia fechada: duas pessoas compareceram. Tu, McFly, compromete-se a revisar meus escritos, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, sejam eles a ti passados em papel reciclado ou em pergaminho, escritos à mão com caneta tinteiro ou, quiçá, com lapiseira, ela perguntou-me já ciente da resposta que ouviria e de quanto deixara de calcular ao ignorar o pedido, Não sei pra tanto e não deveria dizer-te isso, sei bem que não gostas destas falas, considera-me um falso humilde, que seja, mas se reviso algo teu obrigar-te-á a revisar também o que eu vier a rabiscar. E, falar em falsos humildes, aproveita o momentum e pára, retrogradamente, e tece análises e comentários. Esquece o tamanho das bibliotecas que visitaste (fetiche puro, nosso), quero em pauta as formas, que estas se modificam com muito mais freqüência que a matéria, que está e sempre estará por aí.

Pensado, mas não à exaustão, vai à revisora meio sem querer. A memória do revisor assombra e enriquece a ambos, prisioneiros de histórias. Pensara em escrever reminiscências quaisquer que culminassem com a possibilidade de troca de palavras, modificações textuais, misturando ficção à realidade à ficção. Percebeu, não sem esforço, a tolice que pretendia cometer, circunlóquio existencial. O título de revisora não é provisório e, tampouco, opcional, fora aceito em episódio pouco floreado, mas nem por isso menos desejado, sonhado ou planejado, Essas coisas precisam ser feitas correctamente, dizia sem consoantes extras e ciente da mentira que contava, porque jamais, até então, preocupara-se em agir correctamente, em tornar melhor um momento que, por si só, deveria ser bom - e isso lhe bastava.

Como Montero já lhe segredara, escreviam (eu, ela e ela e todos eles - inclua a ti, dentr’eles) diariamente. Pequenos trechos, enviava-os diariamente, mantinha a revisora, a personagem, a editora, ocupada com sua obra. Dava-lhe todo o tempo do mundo para interferências. Não finalizado, o texto estava entregue e, desejava, jamais retornaria à suas mãos.


O Astronauta Nu

Março 14, 2008

A folha em branco, a tela limpa, o espaço vazio, todos encaram-no há semanas, provocando-o, zombando, rindo-se das idéias que vêm e vão, as conexões criadas, os sinais sinápticos rompidos e jamais recuperados; sim, por vezes forçosamente perdidos, ambos seleção e corte cumprem papel na criação.

(A criação) Precisa o artista - ou, mais humildemente, o autor, neste caso - justificar sua obra? Quaisquer criações, podem elas multiplicar-se como propósito ante os olhos de cada único interlocutor? Que motivo há, então, para que nos prendamos a explicações de autores (quer sejam brilhantes, quer sejam tão graves quanto nulas)?

Este texto existe, mas pode-se afirmar ser ele legítimo? Sobre os ombros de gigantes, nas costas de uma mulher, apertado num avião, onde, quando, por quê?

Quantas perguntas! Direto como a Ilíada ou ab ovo como David Copperfield? Melhor um texto hermético ou perdido - afinal, é o fluxo de consciência um movimento consciente? -, desprovido de personalidade? Para aqueles cujas vidas têm significado claro, palavras assim arranjadas são motivo de riso (queria dizer aqui “um grito”) enquanto para nós, outros, não é mais que um murmúrio, mudo, no vácuo sidéreo.

O texto dá voltas e é escrito em pequenos círculos, mais fáceis de traçar que aqueles grandes, compostos estes por outros tantos, circunscritos, todos muito naturalmente conectados numa trama matemática cujos significados escapam ao autor deste registro. Outra volta, uma pista: um registro.

Exposição. A revelação é nova curva; o autor, a esta altura, percebe não ter desenhado: é, antes, mais um dos pontos em que podem ser divididos qualquer segmento de reta - que todos saibam: neste momento o autor é criação.

Ou recriação. Podemos dançar, o texto e eu, fora de compasso. A impessoalidade deixa o salão no mesmo momento em que chegam impulso! e rompante!, deixando pouco espaço para pompa e circunstância, que voltam aos primeiros parágrafos.

E nós - texto, eu, você - retornaremos ao título ou, melhor dizendo, a uma fração de tempo em que só havia um fiapo de idéia a me atormentar. Deveria ser um título com vírgulas, daqueles que fariam Kipling tremer de vergonha e Barrie rir-se. Ah!, certamente combinaria com toda a pompa e circunstância, já citadas e, conseqüentemente, pouco saberiam sobre quem sou, estariam vocês distantes.

Não temam atalhos. Ir direto ao ponto finalmente vem a calhar, porque me distancio um tanto mais do lugar comum e, graças, maravilhas me são apresentadas! Pasmem!, mitos são desconstruídos e a realidade, posta à prova. Sou real, bastante, e se não me desconstruíram, pode-se afirmar que me desarmaram. Não, desnudaram-me, sem pudores ou dedos. Algo errado: Terceira pessoa do plural? Não, que fique claro que a agente é muito bem determinada.

Determinada mas, ao menos por enquanto, oculta - ela tem consciência de quem é; tem também de que este texto é dela -. Selecionou temas, fechou um ciclo, inspirou comportamentos. Desventuras presentes foram jogadas no abismo do esquecimento, inapelavelmente. E, enquanto tanto - repentinamente tão pouco - deixava a oficina, demonstrando um velho esquema organizacional, ferramentas antigas eram postas à prova.

Dramático, classificara-me irônica e desafiadoramente, tal qual uma cientista-deusa que, satisfeita, alfineta novo espécime de inseto em sua sempre crescente coleção, devidamente identificado e registrado. Luvas de pelica na cara: eu, sempre tão ausente de mim, esquecido por e escondido de outros tantos, fora descoberto, desvendado, percebera-me um sem nariz, um-dois-três! McFly é estrela cadente no céu no-tur-no!

Pendurado na abóbada, fingia ser constelação austral, girava sem preocupar-me com os viventes; em tempos modernos, nem percebido era. O telescópio mais potente, buscando informações em todo o espectro eletromagnético - visível, infra, ultra -, jamais notara expressão de existência. Nenhuma ferramenta substitui o estar lá, in loco, respirando poalha estelar, aquela mesma de que somos todos feitos mas nunca, nunca lembramos, preocupados que estamos em jogar os sete erros.

Era estrela cadente. E, enquanto caía, percebia tudo que sempre pudera ver e nunca prestara atenção, o solo se tornava realidade e o pálido ponto azul, mera lembrança. Já prostrado, ao chão, fui ajudado por mão amiga, não sem o custo de ser classificado: até a amizade tem preço, lembrem-se disso. A classificação soara como declamação, era poesia viva a ressoar em meu capacete, criando ressonâncias por toda proteção ainda trajada, tremores nas pontas dos dedos e friozinho na barriga; sensações muito bem justificadas, quase tudo que perdera era questão de ponto de vista e o que ganhara, ora, isto não poderia ser observado e experimentado de um lugarejo qualquer.

Sensações justificadas, novas e, (in)conseqüentemente, amedrontadoras. Pois o medo protege e, tão natural, exagera, acabando por provocar alergia ao que tenciona defender: a própria vida. Inadequado, palavras ressoando ao redor, vi-me sem alternativa e abdiquei de minha proteção, tal qual rei mitológico que enfrentava seus adversários sem quaisquer vestes. Não, que fique claro desde já: nunca fomos adversários, nunca houve animosidade, clima de disputa ou oposição (apesar das marcas, poucas).

Retornamos ao título, à nudez, ao astronauta. Escapei de quem fui. Entregue (a ela, a ti), perdi certezas, tantas, e opções - ganhei-as muitas, também, apesar de não compartilhá-las, não-não -. Que tudo fique nas cadernetas, silenciosas. Não estou, afinal, tão nu quanto faço crer - um bloco, uma caneta -. Importa? Não, só posso agradecer silenciosamente, enquanto certifico-me de que este texto está longe de ser terminado. Hora de inexistir, com duas verdades.


Retornando ou Continuando

Fevereiro 24, 2008

Parara.

Estava distante de qualquer ápice de criatividade e, convenhamos, não era esta a justificativa para a interrupção das atividades de mentiroso amador. Não justifica (como se tivesse a quem fazê-lo, eu), não escusa.

Há muito o que fazer e não sei quanto tempo.

São inúmeros os temas que poderiam ser abordados e tratados neste (moleskine, vejam só, ganhei cadernetas). Sonhos lúcidos, viagens, grãos de tempero, doenças, festas. Megalomaníaco que sou, não admito deixar escapar a oportunidade de tergiversar - - não, nada de versos, pelamor.

Falaria de Clarice e do espelhinho encontrado na obra com que tive contato - esse é um dos temas em que não desejava tocar -. Antes (e por puro gosto) preferiria falar de Sterne, autor já citado por aqui, em algum momento, por conta do onitextual Santos. Lispector e Sterne remontam, num primeiro momento, aos mesmos valores, ao menos em minha própria mitologia: a freqüente e persistente busca por identidade(s), espicaçada por Regina e Carlota, impotentes; pela interpolação de Araujo, Nascimento, Vicente, Ferreira, Joselito, trabalhos e desafios - poderia e desfilaria nomes e motivos se não desejasse ordenar: respeitemos o espaço-tempo, x = {ct, x}.

Espaço-tempo, causalidade, início, meio, curva temporal fechada, início, fim. As humanidades - não consigo, não adianta, não enxergo este ramo do conhecimento, as humanidades, como ciências humanas - permitiam (passado?)  o desarranjo; não somente permitem, brindam-no, recebem de peito aberto quaisquer novidades, as mais absurdas (esse texto seria bom exemplo, fosse ele absurdo por si só).

Digressões. Fazem parte de meus textos desde há muito — cartas perdidas, queimadas, irreconhecíveis e, portanto, inexistentes - como é difícil reconhecer-me! — e, por causa delas fui levado à Sterne. Clarice, já são outras histórias: uma delas já foi contada (voltaria à Regina se acreditasse ser a repetição tão válida quanto a digressão - não é o caso, hoje -: Clarice e Regina estão relacionadas noutro lugar.) e a outra história tem a ver com ***** e ainda outras vivências. Não será este o local apropriado.

Mais de um mês sem dar-me ao trabalho de pôr pensamentos no papel, divagações que expulsassem do sistema interno todo o mal que eventualmente causaria efeitos somáticos. Minha atual falta de resistência possivelmente é resultado dos diversos abusos praticados em nome do volume de trabalho e da marca que, pretendo, seja reconhecível nele: -”Que bela peça!” Faltava-me o tempo suspenso, os instantes entre uma e outra palavra; instantes estes precedidos pela classificação e relação de idéias, todas atabalhoadas, procurando um meio de manterem-se por si só. Só quem nunca escreve espanta-se quando, perto da morte revêtodasuavidanumflashdesegundos.

Enquanto procuro entre vãos e andaimes, encontro três pessoas. Três que - por acidente ou interesse - deram pela falta de alguma palavra minha. Só então, revendo todo este texto, percebo o quão pessoal estou sendo, fugindo à alguns dos objetivos originais, globais deste exercício; percebo ainda que escrever e ler são dois de meus hobby-horses (tenho ainda outros mas, que sei eu?).

Hobby-horses. Sterne. Locke. Notas de rodapé. “E o mundo gira e gira o mundo…” (…) Com o tempo suspenso, não fico tão perdido ou, ao menos, não sou visto com expressões de perdido, dizendo: -”Mas onde eu estava mesmo? Me perdi. Já que mudei de assunto, continuo falando sobre n***, tudo bem?” Pois volto às notas de rodapé: pensei em ignorá-las enquanto lia A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristam Shandy e, fortuitamente, abandonei a idéia.

Uma das notas acerca dos cavalinhos de pau remete à cavalgar - exatamente o que o Santos vem fazendo na última semana. É bem verdade que boa parte de nossas vidas é tomada por cavalinhos de pau - e isso vale para todos, todos -, em tamanhos e espécies diferentes (do que?), o que só vem a permitir estapafúrdias classificações, sejam elas naturais ou não. Já foram tantos os cavalinhos dele!, seria difícil citá-los sem deixar um ou outro de lado, sem conseguir delinear as dimensões deste senhor. Prendamo-nos ao fato de que este senhor tem passeado por plantações de mostarda, à procura de fadas: resultados de seus estudos, leituras e escritos. Não encontrando nenhuma conspiração, que vá caçar suas fadas onde bem lhe aprouver. A realidade é, mesmo, fantástica.

A realidade é mesmo fantástica. Que contatos teria Giu com tal realidade, ela que ainda não se deu a oportunidade de ler Saramago? Apressado, o julgamento. Saramago não é o único a criar realidades fantásticas. Giu, jovem - nunca soube se chamá-la assim causa-lhe algum incomodo (causaria, a mim) - é também ávida por leituras e, recentemente, passou a publicar escritos que antes sobreviviam em arquivos escuros e solitários. Não mais, felizmente, agora bloga: tem deixado seus pensamentos nus, diante de todos. Amigo dela há quase três anos, conheci seu blog não por acaso - conhecê-la, talvez, tenha sido um quase acidente - e, digo sem pudores: fiquei bastante surpreso.

O mesmo não pode ser dito da senhorita Campos - ainda me rio de seu nome, pensando em física de partículas e campos (ela gosta de física e, #gasp#, adora matemática) e lembrando da peça E Agora Sr. Feynman?, em que o famigerado e genial Dick conversava com uma de suas alunas, senhorita Campos. Piadas minhas, nunca lhe contei nada disso (falo como se houvesse algo a esconder - não há) -. A moça, não bastasse os gostos diferentes - física, matemática, Vertigo, Eisner, Sandman, Satie (apresentado a mim por ela: adorei) - escreve muito, muito bem.

Sempre é um prazer trocar letrinhas com quem escreve tão bem e com tanto prazer. Foi Maria quem inadvertidamente me despertou, de sono profundo e já longo demais - estive muito desperto e, ao mesmo tempo, desligado da situação, da importância da experiência -, me trazendo de volta a este universo.

Universo este que só existe

porque há o que contar

Santos, Giu, Campos. As três pessoas que deram falta de manifestações minhas. Não ouso perguntar motivos, e minha curiosidade clama por conhecê-los, todos, estar com eles, beber; antes, torno a escrever, um brinde. Seria um hipócrita se dissesse que publico sem expectativas de agradar a alguém (ou mesmo de causar desconforto!): a experiência continua.

Continua.


Retirando ou Retraindo - um título a mudar

Janeiro 13, 2008

Não se lembrava de, até então, haver retirado algo que externara. Se arrependera de dizer muitas coisas - e continua a fazê-lo com a freqüência  de quem fala todos os dias - e outras tantas, desejava não tê-las escrito; ou talvez fizera tudo ao contrário e aproveitava que escrevia sobre o assunto para eternizar outra de suas verdades (e tinha muitas!, tantas). Escrevera algo que o incomodava; estava ali, exposto a quem se desse ao trabalho de clicar: quase tudo está a pouco mais de um clique de distância. O tal texto, era necessário escondê-lo, apagá-lo, reformulá-lo; não era tanto o conteúdo quanto a formatação. Ou talvez ambos sejam complementares e não possam ser impunemente separados, variáveis canônicas (con)textualizadas.

Aquele texto não era ela, não sentia-se devidamente representado. “Tudo bem, que eu seja um crápula; contanto que me cotem bem,” fugia. Era um crápula e (desistira de perguntar aos outros e até de se perguntar) tinha cotação mínima a seu ver - partindo do ver dos outros: desistira de entender mas ainda coletava opiniões - surpreendente.

Não concatenava idéias coerentemente desde aquela publicação, amadora (como sempre). Eventualmente percebeu que se sentiria mais confortável  caso tivesse falado aquelas coisas, numa conversa daquelas que esquecemos cinco minutos depois. Aquela sensação de que o dito é sempre mais leve que o escrito, ele também compartilha. Os sentidos nos enganam, continuamente.

O auto-engano é viciante, pra não dizer necessário. Nem tudo que é dito é espontâneo e, mesmo que fosse, encaremos: falar sem pensar é, antes de justificativa, falta de consideração. Que se fale mais devagar ou se pense mais rápido. Espontaneidade até seria desculpa; tal desculpa seria válida se alguém lesse os próprios textos antes de expô-los a olhos outros.

Escrevera bobagens, não tinha dúvidas. Fizera tudo às pressas com a finalidade (tola e legítima) de satisfazer a uma necessidade imediata - falava dela como se fosse única e, naquele instante, era mesmo.

Se acha particularmente bom em escrever sobre nada. Tem sentimentos a declarar, novas necessidades prioritárias; tem planos. Joga-os para o alto (e avante!, não acompanha com os pés plantados no chão) em nome de crenças, de fé. Não importam os sofismas alheios: tem seus próprios, cuidadosamente cultivados.

(Con)Vencido, encontra a hora de parar. E pára.


O Sim ou O Não

Janeiro 7, 2008

Afirmei categoricamente: não tenho uma amiga. Não tinha e continuo não tendo, a danada. Não nego, entretanto, nem em sonhos: divirto-me à beça às custas dela, que continua a se expor sem qualquer medo. Depois, reafirmei que não a tinha como amiga e aproveitei o ensejo para falar de novas amizades; todas queridas, tenha certeza. (e não se enganem: umas mais queridas que outras,são sim.)

Começo pelo passado para forçar uma releitura, rever meu caminho que, dizem, tem as mesmas incríveis paisagens que o teu (te acha). Incríveis, vejam só: podem ser incomuns ou incompreensíveis, MARAVILHOSAS ou horrendas; uma amalgama qualquer que resiste à descrições.

E resiste.

Enterrei-me sob escombros do que um dia chamei vida, minha vida (doce, não é há tempos). Parei. Houve lá um período em que tive sucesso em enfeitar a realidade: mas como, digam, como enfeitar o espaço sideral? Esconde-se um planetinha atrás de uma estrela aqui, tira-se uns asteróides do plano de órbita principal de uma estrela ali, doutros ainda se faz pequeninas luas de um gigante gasoso acolá. Não faz diferença, não há corda ou simetria que diluam a ação da solidão humana. Ótimo. Só, não me distraio e posso ao menos tentar entender-me. Só, já desejei estar.

Pois é. Dia desses fiquei sabendo de tal, nordestina, que quase não se fazia perguntas e que, quando resolveu se perguntar, cessou por completo qualquer pensamento que fosse. O tipo de indagação que surge em momentos de luxúria, quando a mente relaxa e se permite vaguear. Diria o sociólogo: -”Quem não tem o que comer, não se pergunta , luta pra sobreviver.” Mediocridade dupla e secular.

A pergunta é fatal. Somente donos de primorosa imaginação aquietam-se frente à solidão murmurante: prenúncio de algo maior ou de… solidão murmurante (como a que me assola, enquanto espero, cercado por tantas pessoas). Nem sempre o mundo precisa ser mais complicado do que esperamos.

O tema não se esgota. Eu? me esgoto. Não tenho as respostas; quando muito, dicas, indicações, nãos.

Não.

Não.

Não?


Texto Curto ou Sem Sal

Janeiro 2, 2008

Sabia que era presente. Jamais fora passado ou futuro: não seria recordado, não estivesse ele ali, nem imaginado minutos depois, fossem eles trezentos e dezesseis milhões, trinta ou dois. Sentia na pele o tempo, cada instante fracionando-o, mais e mais distante. Tentar viver de outra maneira não tinha qualquer relevância imediata, não era objetivo. As mudanças importantes, ele sabia, deveriam acontecer na ordem interna, nos mecanismos; trocar os números por pedaços de sonhos ou encantamentos jamais produziria os efeitos que rearranjar as engrenagens - às vezes até sumir com uma delas, “pfffuuuuu!”, colocando uma pitada de desconhecido e falta de chão (falta de chão cai bem em qualquer receita, saibam disso) - seria capaz de gerar.Queria muito. Evitava sonhar, planejar, desejar. “Não é assim que se passa por dezembro,” ouviria repetidas vezes, “tanta coisa muda. Só você não quer mudar, é?”

O que mais queria era não mudar. Perdera a própria ordem em agosto, jogara fora ligações em outubro, fora derrubado como um bovino em novembro e aspergira os papéis em dezembro - se é que é possível qualquer tipo de ordenamento, pois sim - e agora… não mudaria.

A transição, final (porque toda mudança é final), não existia: já estava todo, completo, pré-concebido. Não poderia ser mais mentiroso se planejasse minuciosamente. Só percebeu quando já era tarde demais. Já era. Tic. O ano velho ficara pra trás. Tac. Não notou que deixara de ser exato e o ano, medida de tempo, legal. Fez promessas de última hora, dançou a noite toda - por toda a vida -, bebeu e não se embebedou, mandou mensagens - e se surpreendeu, mas vale outra história, isso -, tomou canja e comeu cuzcuz, ligou pra Paris (-”Alou? Camembert. Roquefort. Catupirrry. GorgonzoLa?”), Texas.

Muita coisa. Os sonhos ficavam em segundo plano; enquanto vivia, pensava impressionado “I’m focked. Nay, I’m a focker.”

O pensamento o tornava forte, convicto. Não falaria nunca, preferia escrever, abstrair. Seus desejos seriam de outros, de uma terceira pessoa, plural ou singular.

Seu ano novo já era…

dela.


Carta Direta ou Malfadada

Dezembro 28, 2007

Carlota,

Eu percebi. Notei. Vi. Ou melhor: não vi.

Neste natal tua ausência ardeu, presente. O natal, em si, tem papel de pouca relevância ao que estou a lhe contar, é uma data incidental; marca-me muito mais o vazio - meu companheiro, parceirão mesmo -, que me calou, provocador.  

“Ah, e agora te faço falta… sei.”

Não, não sabe. E esta carta, aberta e quase sem dono - porque não te convido a vir aqui, ler - não será uma tentativa de explicação, redenção, pedido de perdão, nada disso. Já estou distante deste ponto, sujo e maltrapilho, não pretendo virar a cabeça pra espiar o que deu certo e o que fiz de errado. Ao menos não agora (novamente).

Estou escrevendo porque percebi. Notei. Somei. Acordei querendo notícias tuas, naquela manhã. Freqüentemente quero, pouco importa que esteja distante; egoísmo meu - aprendi a encher a boca e dizer, com mais letras que as necessárias, que sou egoísta, mas isso você já percebeu, não? -, acreditar que faz qualquer diferença saber. E faz, pra mim (e não é isso, e somente, isso com que deveria me importar?).

- e lá ia eu, falando sobre mim novamente -

Como ia dizendo, queria notícias. Vinha mantendo uma única fonte, a rede de relacionamentos; e relacionamento era algo que não tínhamos mais nem mesmo dentro da rede, finalmente se livrara de nossa tênue relação. Pois é, e naquela manhã de silêncio, não te encontrei. Nada, simplesmente deixara de existir. Deixara de existir? Incorrecto - com a majestade dos ces portugueses -: até mesmo o suicida virtual deixa sua marca no mundo.

Andei, procurei, revirei. Nada, realmente partira rumo ao oeste?

Derivei. A cronologia bate, os eventos podem ser ordenados em disposição tal que torna possível explicar os últimos acontecimentos. E, justamente por isso, uma carta aberta: você sabe da existência deste lugar, sabe sim. Não tocarei no processo de descobrimento, seria extenso e técnico: gibberish, noise. Aponto somente a ponta da montanha flutuante de gelo: a menina que colore.

Quando não te encontrei, quase que imediatamente lhe dirigi um e-mail. Quase que;  fui impedido por senso que não é bom nem mau (nem poderia ser, os adjetivos sempre advém de nosso juízo, nunca do senso). No mesmo dia, dei de cara com um desvairo de Maria, resposta a algo escrito ainda em outro blog, do Isquierdo: provocações à distância e desinteressadas. Pois é, me vi na imagem por eles pincelada: faltam-me pedaços e, por minha vez, tenho comigo pedaços de vocês: Frankensteins.

Conversei com Vicente. Fez questão de falar, sem papas na língua: -”Você gosta das coisas mal resolvidas, gosta que fiquem no ar.”

Minha perspectiva é bem outra, especialmente nestes casos. Claro, só vejo o que me interessa. E, sinceramente, quem entrou com a bunda em nosso último e derradeiro acordo, fui eu. Não fiquei bem resolvido, não. Quem tem que agüentar isso sou eu. Nunca mais liguei pra você; e-mails? só mandei praquela conta específica, que você só usava pra conversar comigo e que nem deve olhar desde a fixação da marca do teu sapato no meu traseiro - e, se olhou, é porque você estava mal-resolvida (problema seu, essa situação me parece muito clara) -, não dei chiliques ou chorei no ombro dos seus amigos; mal falei com os meus! Nada disso. Eventualmente me resolvi, me peguei lembrando da perna boa que já tive, aceitando nunca mais andar igual, por mais desengonçado que fosse meu caminhar: gosto de ver as fotos antigas (sou assim). Gosto de lembrar. E só.

Aceitei minhas feridas. Por elas, fui à guerra. Livre e espontânea vontade, se é que temos algum arbítrio quando o assunto é o sonhar. Não existe, ficamos presos entre medo (que alguns, artistas, dominam), improbabilidades (o impossível torna-se provável) e nossas ações (ainda há aqueles que pretendem responder pelas ações alheias).

Você deveria estar bem, resolvida, feliz. Recuperou-se rapidamente - a olhos vistos, só não viu quem não quis -, enquanto eu, sentado, alimentava os pombos, observando o movimento na praça: bolas quicando, casais se esfregando em júbilo, o vendedor da carrocinha de cachorro quente. Você deveria estar bem resolvida. Deveria. Deveria.

Partindo do (claro) pressuposto de que esteve aqui, da ordenação precisa e explicativa dos acontecimentos, chego à conclusão. E me preocupo. Te conheço um bocado e não fico feliz em saber que você pode, ainda, sofrer por minha causa ou qualquer coisa relacionada a mim. Pretensioso, sim, e não por vontade própria. Diga que estou errado, que não vejo nada acima da linha do meu umbigo, não reclamo. Novo acordo: continuo quietinho, não falando mais seu nome, nem baixinho quando estiver sozinho e você, por sua vez, me esquece: me joga, me apaga, se livra.

A possibilidade de que posso estar errado nem é aventada; se estiver errado em tudo que disse, não há qualquer diferença para o ontem ou o hoje. Não dependo disso, também: estou fazendo o que necessito. E só.

Eu percebi. Notei. Vi. Não agüentei e… te escrevi. 

  

  

Um pedaço de conversa - imaginário, como todas as minhas conversas

Escreve. Quando criança, a palavra era tua. Voz. Instrumento. Playground.

“Acontece que não sou mais uma criança.”

Dirias isso sem mover qualquer músculo, alterar a respiração, contrair ou dilatar as pupilas.

Desnecessário. A graça em perder certezas é navegar ansiedades e meias-lembranças.

Escreve como sabes (e sabes bem). Tua pena agora faz click e permite graus diversos de escrutínio.

“Escrutínio, escrotinho.”


Feliz Natal! ou Feliz Natal?

Dezembro 24, 2007

Sacaneando T. H. White e, conseqüentemente seu mago Merlyn , em Espada na Pedra, “A melhor coisa para uma bebedeira é escrever algo.” Tudo bem, mentira deslavada; enquanto iniciava isso, ia lembrando do queridíssimo Guimarães tentando formatar seu PC a cada novo porre.

More beer. 

A long time ago

A moment in history

When all there was to drink was nothing but cups of tea

Alone came a man by the name of…

Pouco importa.

Conversa com o Sr. do Lazer.

Santos desapareceu (maldito! isso lá é hora de conseguir ser solitário?).

O que resta? Acabo de fazer questão de dizer a Hazel, o Sr. do Lazer, que me faltam referências para agradecer o presente que acaba de me conceder.

Não é uma mentira. E é.

Tenho algo, que entoaria com Santos. Não é um presente, jamais seria. É algo que preciso ter escrito, que faz parte de quem, eventualmente, me tornei. Quem me tornei? E quem diabos é McFly?

(Volto a essas perguntas em breve, preciso)

Cito.

Obrigado, obrigado, obrigado.

Porém cantar, sonhar, passar

Ter liberdade e fibra,

Ter a vista segura e ter a voz que vibra

Pôr o meu feltro à banda e - espanto dos perversos -,

por um sim, por um não bater-me, ou fazer versos?

Trabalhar sem ter fito em lucros e honrarias,

Numa excursão à Lua e noutras fantasias!

Nada escrever jamais

Que eu mesmo não produza

E, modesto, dizer à minha altiva musa

“Seja do teu pomar - teu próprio - o que tu colhas

Embora fruto, flor, ou simplesmente folhas”

Depois, se acaso a glória entrar pela janela

À César não dever a mínima parcela

Guardar para mim mesmo a gratidão mais pura

Enfim, sem ser a hera - a parasita obscura -

Nem o cavalho e o til, gigantes do caminho

Subir, não muito sim,

Porém subir sozinho.

(ok, eu precisei reler duas vezes até chegar a algo próximo ao que acredito ter decorado)

Natal.

A parte ruim do Natal é descobrir coisas, situações, meias-verdades. Eu descobri que não queria estar neste lugar; e não gostaria de estar em nenhum outro. Há tempos esta época do ano não favorece meus apetites, em absoluto. A culinária natalina não me apetece, definitivamente. Ser quase que obrigado a agüentar esta ou aquela situação, aquela ou aquela pessoa? Céus (praguejemos).

Devo ter insultado alguém, há pouco. Quem escreve o que quer, ouve o que não quer. Poderia ser diferente, mas… precisaria? Não.

Vejamos: o texto mal começou e já parece longo: dá-lhe linhas, dois pontos, parágrafo, memória curta, trecho longo (e, ainda assim, menor que o original). Disse nada e consegui gastar a referência que provavelmente me é a mais querida, de todas, todas. Maldita mania de usar vírgulas pra separar palavras iguais, escrever como penso, falando e colocando na folha branca, digital, limpa e limpa, sem os borrões que tanto me irritam ou as marcas que freqüentemente deixo ao manusear. Alguns manuscritos estão velhos e amarelados e, apesar de em minha posse, não me pertencem mais, certo Santos?, Ó Santos que toda quinquilharia há de herdar porque, e só porque, teve o azar de parecer-se comigo, nem que seja como uma sombra ou a estátua que me cobre, pouco importa, as sombras se fundem e não são duas. Não deveria ser surpresa, e é. Ou não. Queime tudo, não posso me importar. When I’m gone, I’m gone. Before that, you simply wouldn’t dare, nest-ce pas? (Batman, 1989, primeira lição de francês da minha vida: -”Bruce. Wayne, nest-ce pas?”).

(que os longos períodos, estranhamente pontuados, se percam na escuridão, estáticos, sem voz, substância ou humor)

Pronto a fazer uma calhordagem. Que ninguém, pelamor, ninguém, se jogue na arapuca. Ela não está posta pra pegar nada, é apenas… *sigh*

Não minto.

 Sou McFly. Sou O’Melk. Sou Cameron (claro que sabias dessa). Sou ninguém. Faço questão de. Deveria ficar chocado se e quando alguém, quem quer que fosse, esquecesse meu nome. Não fico, sou anônimo, sem honras, glórias, feitos. Amigos de 20 anos se esquecem, completa e inequivocadamente, de meu aniversário. As pessoas com quem trabalho não sabem meu nome e eu, pra felicidade delas, mal consigo me lembrar que já as vi nalgum, como só a Cabessandra juntaria conjunções - e acabo de descobrir que, em certas regiões, conjunção refere-se à menstruação. Bêbado com dicionário na mão, pode? -, momento de minha vida. Sou uma negação com nomes, não os decoro e mal me lembro dos rostos. Total vergonha.

(714 conjuntos - não necessariamente palavras, uma pontuação qualquer já conta como um conjunto. Adoro números, me prendo mais a eles, enquanto escrevo, a cada dia que passa)

Esqueceram de mim. Do aniversário, até de meu nome. Alguns me vêem, talvez, como garoto do futuro - não aquele do filme em que o menino virava lobisomem (tradução pobrérrima de Teen Wolf), não, estou falando do bom e velho McFly, mesmo. Deveria sentir-me insultado, é o que a curva faria. Não sou a curva. O tragicômico é que não ser alguém me torna uma pessoa mais feliz, ainda. Minto todo o tempo. Delicio-me ao notar olhares de interrogação, cheios de dúvidas quanto à minha verdade. Não tenho verdade, ela nunca existiu, em lugar ou tempo algum. Ainda durante a semana que passou disseram, em resposta a qualquer coisa que eu tenha dito: -”Caramba, eu nunca sei se você está falando a verdade ou está mentindo.”

Sempre minto.

Sempre. Nasci mentiroso. A primeira coisa que disse em minha vida foi “os brutos também amam”, aos três anos. A primeira palavra que li foi “Maringá”, de um cockpit. A primeira vez que me arrisquei, foi saindo de um ônibus. Não conclui a universidade, jamais fui ao cinema, começo os livros na metade e paro antes do fim.

Estou apaixonado. Não, bloco errado, suba ao anterior: amo.

Me calo. 960 é múltiplo de 3, como qualquer número cuja soma dê 3: (de 12, 1+2=3; de 15, 1+5=6, etc. etc.)

Maria acaba de sair.

Ela gostou do que lhe disse, antes que partisse. Não sei me despedir, também. Diabos, nem sei escrever. Chega!

Saio eu, sai você.

Gracias señor Gaiman. Onde mais eu, logo eu, leria sobre anjos, demônios e o inefável? Gracias.


Quase Uma Continuação (fragmentada) ou Uma Quase Crônica ou Quase Nada

Dezembro 24, 2007

 (1)

Por onde eu começo? Confesso estar ligeiramente perdida… em meio a uma
gripe danada e muita febre. As idéias estão dançando na minha frente e,
quando tento agarrá-las, elas simplesmente viram fumaça. Muito surreal? Pois
é exatamente assim que eu me sinto hoje.

(2)

Agora eu acho que vou passar a bola… pois ainda quero saber mais sobre
você. Tá certo, eu posso dar as perguntas… como por exemplo: o que você
gosta de fazer? você tem irmãos?

(…)

Tem uma outra, que você pode ficar sem responder, se quiser, pois creio
que seja um pouco abusiva: você vive dizendo que mudou, ou melhor, que
alguma coisa aconteceu com você obrigando-o a se mudar… juro que isso é o
que eu mais gostaria de saber sobre você…

(3)

Hoje quem está sem tempo sou eu, mas não quero que você tome isso como
uma cortada… Pra te dizer a verdade, eu ESPERO as suas mensagens porque
simplesmente gosto de conversar com você - ainda que seja de uma maneira tão
impessoal.

Só tem mais uma coisa que me chamou a atenção em você, apesar de não ter
dito nada em um primeiro instante: o jeito como você fala do céu!! Por
incrível que pareça, compartilho de sua admiração. Lógico que não entendo
nada do que acontece lá em cima; pra mim, tudo é como um teto mutante,
grande demais perto de minha pequenez… bonito demais também… mas, enfim,
olho para o céu com olhos leigos (cientificamente falando) e acho a coisa
mais incrível que Deus já criou.
Meu namorado diz que às vezes é difícil me trazer de volta ao nosso mundo
quando estou olhando para as estrelas. Acho que ele não vê o que eu vejo…
E como vejo!

Outro dia me lembrei de você justamente ao olhar o céu. Era um anoitecer
lindo, com gradações de azul profundo e rosa… mas depois eu falo disso pra
você.

(4)

Quanto tempo faz mesmo que você me escreveu pela primeira vez? Só uma
semana? Pois eu podia jurar que conversamos há mais tempo. Estranho…
Por favor, não volte a ser o “menino de outrora” (apesar de eu ter que
confessar que às vezes não sei quem é a Fulana menina e a Fulana mulher…).
Quando ressaltei que “espero” por suas mensagens, eu quis dizer exatamente o
que você entendeu: que são importantes pra mim, sabe-se-Deus-lá-o-porquê…
Sempre ouvi e li os psicólogos do comportamento dizendo que as pessoas
adoram conversar pela Internet pelo simples fato de poderem ser e dizer
aquilo que elas NÃO são… que é um veículo que mascararia suas próprias
fraquezas etc etc. Você é a minha primeira experiência desse tipo, digo, de
conversar por conversar com alguém que não conhecemos ou que mal conhecemos,
e eu posso dizer que sou a prova viva de que há exceções para essa tese…
Com poderia afirmar que mascaro alguma coisa, se comecei me abrindo com a
minha maior fraqueza (que foi o concurso)??? Não sei… Sinto que se o
reencontrar um dia, poderei olhar em seus olhos com o coração limpo: tenho
sido sincera como talvez nunca fui antes.
E por que? Também não sei. Aliás, se formos fazer uma listinha das
coisas para as quais tenho explicação e uma outra para tudo que não sei
explicar, com certeza a segunda vai extrapolar a primeira.
Quer saber de uma coisa? Num primeiro momento, cheguei a me sentir mal
pelo fato de - talvez - tê-lo feito sofrer quando éramos crianças… daí
fiquei pensando e cheguei à conclusão que não é bem por aí… na verdade
acho que me senti mal por não termos nos tornado amigos… mas não adianta
ficar quebrando a cabeça, tentando adivinhar as causas. Afinal, nós éramos
os “meninos de outrora”… (já viu que gostei de sua expressão, né?)

(…)

Você disse que estou mais “solta” ao escrever … realmente não posso
notar a diferença, já que foi fruto de um movimento inconsciente. Sei lá,
devo ter ficado com vergonha de você… Vergonha de quê? De estar sendo
sincera, escrevendo coisas importantes pra mim e, de repente não ser nada
daquilo que você espera do outro lado. Agora já penso diferente, mas no
começo… como eu ia saber? Simplesmente arrisquei.
Você também mencionou certa “distância” no meu escrever… Como você sabe
que foi inconsciente e estando tudo explicado, agora gostaria que você me
respondesse uma coisa: isso te incomodou? Digo, o fato de eu parecer
“distante” ao me dirigir a você?
Fala aí, essa pergunta foi boa…

Falando de perguntas, você percebeu que estamos andando em círculos? Você
aí, sem saber como me falar de sua “mudança” esse ano; e eu aqui, sem saber
como me abrir com você a respeito da tal tristeza. E o gozado é que eu sinto
que você me entenderia…
Deixa pra lá. Quando chegar a hora certa, a gente fala. Isto é, se você
quiser continuar conversando comigo…

(…)

Esqueci de responder uma boa: você me perguntou de que sou formada, no
nível mais básico…

Sou formada de silêncio. Serve?

(5)

Meu Deus, por onde? Deixa eu dizer primeiramente que estou sob o efeito
de um vinho delicioso e que, apesar de ter uma tonelada de coisas para
escrever, não sei se terei discernimento para dar conta de tudo.
Não, não, não pense mal de mim, que eu já te conto o porquê de tanto
vinho… não sei se eu te falei, mas faço um curso de italiano aos sábados
pela manhã… bem… não é uma escola convencional, mas sim uma associação
fundada por descendentes de italianos que moram aqui. Como você deve saber,
essa região do interior paulista foi praticamente invadida por levas e levas
de imigrantes italianos (inclusive meu bisavô) que vieram plantar café. Meu
bisavô era um soldado do rei (tenho uma foto inacreditável dele!!) e fugiu
da Itália por motivos políticos… mas isso não tem nada a ver com o vinho e
faz parte de uma outra história… Quanto ao curso, só dá louco… - ou,
como você mesmo disse, “um grupo de malucos que eu considero absolutamente
normais”. Tem de tudo: jovens, velhos, casados, solteiros, namorados,
mal-amados, tímidos, excêntricos, etc etc e somos a turma mais atrasada pois
todo sábado aprontamos uma verdadeira festa. Às vezes comemoramos alguma
coisa importante, mas na maioria das vezes comemoramos o simples e belo fato
de estarmos ali, vivos, e tudo acaba em vinho do mesmo jeito. Na turma, há
um professor da UNESP daqui e ele resolveu fazer hoje umas entradas quentes que aprendeu na
região da Campagna (Itália) - ou será na Toscana?? ichh, já ~me perdi… - à
base de mozzarella de búfala, tudo regado a muito vinho siciliano (em
homenagem à mafiosa da professora, que é da Sicília). O fato é que ali
dentro esquecemos nossas diferenças, idades, nossas próprias vidas,
famílias, problemas e - principalmente - AS CONVENÇÕES SOCIAIS .. e bebemos
e falamos, cantamos e comemos até - digamos assim - passar mal.
Imagina só: bebendo às 9 da manhã… Enfim, bebi tanto que ainda sinto
minhas bochechas levemente quentes…
Mas é gostoso ter amigos, você não acha?

(6)

Sem palavras para agradecer… Estou escrevendo essa mensagem só pra te
dizer que li sua história e fiquei com um nó na garganta… acho que me
interesso mais ainda pela sua vida, por você, sei lá… do que antes de
lê-la. Me identifico com uma porrada de coisas…
Não vou te responder agora porque acabei de imprimir sua história para
relê-la pelo menos umas 3 vezes. Você receberá uma outra mensagem minha,
mais decente, em breve (ainda hoje), pois quero pensar e repensar no que vou
te dizer… (quero que todos os detalhes sejam significativos e coisa e tal,
não tô a fim de escrever só por escrever.)
Você disse coisas que me tocaram fundo, só posso dizer isso por enquanto.

E depois…

tudo mais, tudo, foi dito, escrito e quase perdido.


Quase Crônica ou Quase Nada

Dezembro 22, 2007

Maria dizia ser impossível. Não somente dizia ser impossível, ela tinha a mais absoluta certeza - como se toda certeza não fosse, desde sempre, absoluta - de que tal acontecimento não tinha chance alguma de acontecer, ou seja, ela não acreditava.

Enquanto segredava fragmentos, os mais pessoais, o mundo girava, sem qualquer consideração: o entregador de pizza conversava com um porteiro, um arquiteto arrasado continuava a vagar pelas mesmas duas páginas que o encararam a tarde inteira, uma fiel esposa cantarolava e lavava as louças do jantar, um menino recordava que já não era mais tão menino quanto continuava a acreditar.

As páginas não mudavam, nem o arquiteto. Seu humor fora destruído, estilhaçado, pelo bom humor da mulher amada. Causar dor, incomodar, cutucar, eram os únicos cursos de ação possível, mesmo que realizados despretensiosamente, inconscientemente. Sonhara em tê-la nos braços, comer seus brigadeiros, ouvir músicas, esparramados no sofá. Apaixonara-se, sim, através da internet. Uma palavra bem colocada, um sorriso sugerido, ele entendia os sinais digitais. Ela era, mal sabia ele, completamente analógica.

A fiel esposa encontrara o marido muitos anos antes, quando ainda cursavam a escola. Não foi amor à primeira vista, nem conversavam, não tinham nada em comum. Ele: perfeito Caxias, dono de culturas exatas, desprovido de inteligência; ela, muito humana, servil e antiquada. Em comum, tinham a incapacidade de mudar o suficiente, de aprender e apreender qualquer novidade. Separaram-se por pouco tempo, no universo de anos em que estiveram e permanecem juntos. Ele, desatento, jamais percebera as pequenas coisas, as idiossincrasias. Perceberia muito mais tarde os detalhes tão pequenos de nós dois. Ela apaixonara-se. Por outro. Via internet. Mínimo contato, máximo de atenção. Menos é mais: certamente não havia a expectativa da relação formal; bobagem, desejaram ficar juntos.

O menino crescera. Vivia tentando se convencer, já convencera os outros. Continuava a apaixonar-se, dia-a-dia. Quando mais novo, era volúvel. Não envelhecera, mas tornara-se constante: sonhava com a mesma garota, sempre. Não seria a primeira vez. Em seu coração, poderia ser a última, sem quaisquer prejuízos. Via internet. De novo? Sim, não havia como negar (e ele tentou, tentou sim), roubara uma quase noiva há tempos. Agora, nada queria roubar. Tsc tsc.

 Maria dificilmente acreditaria. Nem precisava. Era ela quem contagiava os ambientes (e sequer se dava conta disso). Uma janela de Messenger jamais lhe seria suficiente. Jamais!